domingo, 17 de julho de 2011

Comportamento verbal - o baianês e seus significados

Algum tempo atrás, um amigo meu me contou que havia assistido a peça do ator baiano Luis Miranda, chamada 7 conto, onde ele interpreta várias esquetes humorísticas relacionadas a personagens do nosso cotidiano (um exemplo é o impagável flanelinha).

Uma das esquetes que fez o meu amigo morrer de rir foi uma em que o Luis fala do jeitinho soteropolitano de falar, reconhecido como o baianês. Qualquer um que já chegou perdido por aqui percebe que baiano tem umas expressões muito únicas.

O exemplo que o Luis deu foi uma conversa ouvida na rua, entre dois amigos. O segundo respondeu a um pedido qualquer do primeiro com a pérola: "Deixe estar, que qualquer coisa é ninhuma!"

"Qualquer coisa é ninhuma?" WTF?


comofas?


Ouvindo isso, eu me lembrei das discussões sobre significado que o Skinner traz logo no início do livro Comportamento Verbal, que estou começando a ler.

Inicialmente, segundo Skinner, as teorias sobre o comportamento verbal se baseavam no conceito de ideia.  Palavras estavam ligadas a idéias específicas. Em decorrência disso, se alguém quisesse expressar determinada ideia, usaria determinadas palavras; se quisesse expressar outra ideia, usaria outras; se não conseguisse se fazer entender, era porque não utilizava as palavras corretas para expressar a sua ideia, e assim por diante.

Um problema disso é que mesmo uma única ideia pode ser expressa por palavras diferentes, que é o que fazemos quando reformulamos um enunciado, por exemplo. Isso não garante que o segundo enunciado esteja mais próximo da ideia que o primeiro. Mais uma do baianês pra exemplificar isso:

quem entendeu me add

Ainda segundo Skinner, complementar à noção de ideia veio, então, a de significado. Esta é bem conhecida dos estudantes de psicologia, que acabam estudando alguma coisa de linguística para entender ou pelo menos fingir que entendem Lacan e sua máxima de que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem".

Significados estariam ligados também a palavras específicas, se recombinando para criar outros significados, e assim por diante. Segundo Saussure, cada pessoa teria uma espécie de conjunto de imagens mentais onde um conceito (significado) estaria ligado à uma imagem acústica (ou seja, ao som da palavra, o significante), o que constituiria um signo. Para ele, assim como para Freud*, cada significante teria um significado ligado a este - e Freud, para explicar a natureza dos atos falhos e chistes, diz que relações de proximidade entre estes signos no inconsciente produziriam tais tipos de confusão.

O problema destas noções, apontado por Skinner, está em algo que pode ser observado facilmente na vida cotidiana e nesses exemplos do baianês que citei acima: idéias e significados pareceriam ter uma espécie de vida própria, sendo pequenos pacotinhos linguísticos que estão por aí pairando em algum lugar e, então, carregamos alguns conosco. Essa "existência independente" é praticamente impossível de ser analisada. Quando falamos de algo, nos expressamos tentando nos aproximar desse algo, mas ele vai estar inexoravelmente ligado a um contexto bem mais complexo. Citando o tio cabeça de lâmpada:

"Pode ser verdade que os nomes próprios mantêm uma correspondência biunívoca com as coisas, supondo-se que cada coisa tenha seu nome próprio, mas o que dizer dos nomes comuns? Qual é o significado de gato? É um gato a totalidade física de todos os gatos, ou a classe de todos os gatos? Ou devemos nós abrir mão da ideia de gato? Mesmo no caso dos nomes próprios a dificuldade permanece. Admitindo-se que haja um único homem chamado João, é o próprio João o significado de João? Certamente ele não é transmitido ou comunicado quando a palavra é usada" (Skinner, 1957, p. 10).

Admito que só usei esse exemplo porque nele o Skinner fala de gatos

Pois bem. Voltando ao "qualquer coisa é ninhuma": do ponto de vista dos significados, essa frase não faz NENHUM sentido. Se qualquer coisa é qualquer coisa, ela não pode ser nenhuma ao mesmo tempo. Então como diabos qualquer coisa pode ser nenhuma?!?

Pra mim, que sou baiana e falo soteropolitês fluentemente (além de outros dialetos baianos, já que tenho ligações com três regiões diferentes da Bahia que por sua vez têm suas expressões próprias, fora que na própria Salvador existem subdialetos, mas enfim...), a frase faz todo o sentido. "É ninhuma" (sim, com som de "i", porque baiano que é baiano fala "tiuria" em vez de "teoria", também) é uma expressão que de alguma forma sabe lá Deus como quer dizer apenas: "é desimportante, fique tranquilo". Ou seja, o amigo apenas disse pro outro que... que... qualquer coisa é ninhuma!

Se formos tentar entender uma expressão dessas apenas pelo significado formal das palavras a coisa fica impossível. Isso apenas porque os significados são dependentes do contexto - em behaviorês, do ambiente - e da história de vida do falante. E, como pode-se concluir a partir disso, comportamento verbal também é comportamento - e como tal está submetido ao mesmo esquema de seleção do que outros comportamentos não verbais, o esquema operante. Para se manter, ele terá de ser reforçado; para sumir, pode ser punido ou extinto, e tudo isso vai depender de aspectos filogenéticos (o que a espécie é capaz de produzir em termos de som, algo que sabemos que é variadíssimo), ontogenéticos (a experiência do falante durante a vida) e culturais (a cultura em que o organismo se insere, que, como vimos aqui no caso dos baianos, também é bem significativa).

Se sou reforçada ao dizer uma abobrinha como essa, me fazendo entender - mais acuradamente, produzindo consequências reforçadoras no ambiente -, vou continuar a dizê-lo. E, se não sou reforçada, provavelmente deixarei de dizê-lo ou tentarei traduzir a coisa. Isso é facílimo de perceber quando conversamos com pessoas de outros estados do Brasil. Eu, por exemplo, já percebi que quando falo nomes de pessoas com o pessoal do Sudeste, falo "o Fulano" ou "a Beltrana", sendo que aqui na Bahia omitimos os artigos definidos quando vamos nos referir a alguém. Tudo pelo meu histórico de reforço e punição ao falar com pessoas de comunidades verbais diferentes da minha.

Enfim, buscar significados das palavras e tentar se valer deles ao se expressar pode até ser tentador, como denota Skinner, mas ajuda mais a bagunçar o meio de campo do que qualquer coisa. Para entender o comportamento verbal, não dá para prescindir de uma análise funcional do que é dito. A partir dos efeitos desse comportamento no ambiente é que vamos chegar perto do que algo quer dizer - e no baianês, então, as correspondências entre o que é dito e o que significa podem ser das mais esdrúxulas...


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* Freud, no apêndice do artigo "O Inconsciente" acima citado, já havia começado a teorizar sobre o papel da linguagem no inconsciente, no que se aproxima de Saussure. No entanto, quem foi desenvolver essas idéias foi Lacan, inclusive invertendo a ordem do signo proposta por Saussure: o significante viria antes do significado. Como não é o foco do que escrevi aqui, não me delonguei sobre o tema - apenas apresentei uma visão da linguística clássica sobre o que seria o significado, para contrapor à idéia de Skinner. Para saber mais sobre o assunto, basta consultar os textos, bem como os escritos de Lacan sobre isso. (Por sua conta e risco...)

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Referências

Freud, S. (1915). O inconsciente - apêndice C: palavras e coisas. In: ____ Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 15. Rio de Janeiro, Imago, pp. 275-314.

Saussure, F. de. (2008). Cap. 1: natureza do signo linguístico. In: ___ Curso de linguística geral. São Paulo, Cultrix, pp. 79-85.

Skinner, B. F. (1957). Cap. 1: uma análise funcional do comportamento verbal. In: ___ Comportamento verbal. São Paulo, Cultrix, pp. 3-13.

4 comentários:

  1. Muito bom, Aline!

    De fato, o estudo do comportamento verbal nos ajuda a compreender muitas coisas sobre o uso da "linguagem". E sem precisar apelar para constructos e entidades, apenas uma explicação naturalística e funcional.

    (Pena que o livro "Comportamento Verbal" seja TÃO chato, pqp...=P)

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  2. Eu simplifiquei bastante o tema, ainda dá muito pano pra manga essa proposta do Skinner de eliminar o internalismo no estudo da linguagem. Nem precisa falar de Chomsky e sua patotinha...

    Bom, eu só discordo que o Comportamento Verbal seja chato. Digamos que seja apenas um livro complicado. :P Mas estou gostando bastante de ler.

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  3. "Porra!" - expressão de surpresa
    "Pooorra!" - expressão de admiração
    "Porra!" - expressão de raiva
    "Porra!" - expressão de alegria
    OBS - Existem mais de 5000 diferentes usos para o verbete "porra" em Salvador incluindo nestes o uso do "porra" como uma vírgula, no caso da frase: "... mas porra, essa porra tava dificil cuma porra".

    "Vey!" - usado para chamar a atençao da pessoa com quem está falando.
    "Veey" - aviso para alguém ter cuidado com algo.
    "Veeey!" - expressa de discordância.
    "Veeey!" - expressa de concordância.
    "Veeeey!" - expressão de surpresa.
    "Veeeeeey" - expressão de facinio.
    OBS - Existem mais de 10000000 diferentes usos para o verbete "vey" em Salvador.
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    Esses são os piores de todos. Podem significar QUALQUER COISA. Fora o gosto dos soteropolitanos por falar palavrão: "porra", "miséra" e "disgraça" estão sempre em pelo menos 80% das frases num diálogo comum... Acho isso louco demais. Hahaha

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  4. Traduzindo a fala de Aline acima: Pra entender baianês basta estar bem treinado em autoclíticos!
    Eu disse BEEEEEM treinado!

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