domingo, 28 de agosto de 2011

O que religião significa para mim - B. F. Skinner

Skinner, ao contrário de Freud - que se dedicou em algumas passagens dos seus escritos a atacar frontalmente a crença em Deus -, não escreveu tanto sobre este assunto. Nos seus textos há um posicionamento, em geral, contra instituições autoritárias que interferem na vida humana exercendo formas de controle alienante, sendo aí incluídas instituições religiosas. No entanto, ele não se preocupou em falar tão diretamente sobre Deus quanto se pode imaginar, pela forma como defendeu a ciência durante toda a vida.

Com isso, me interessei bastante ao pôr as mãos sobre um texto do autor sobre o assunto, intitulado "What Religion Means to Me", datado provavelmente de 1986. Não encontrei menções oficiais sobre o texto - quando foi publicado, se foi publicado, se foi resultado de uma fala informal ou apenas um escrito avulso do Skinner. Portanto, não posso afirmar a veracidade do texto, embora ele circule na internet já há algum tempo.

O texto traz a visão de um Skinner já nos seus últimos anos de vida sobre a sua relação com a religião. Traduzi o texto e ele está disponível na íntegra nas próximas linhas. Não sou nenhuma exímia tradutora, então, disponibilizo também o original no fim do post para aqueles que desejarem ler.



Cresci numa cultura moderadamente religiosa. Por muitos anos eu fui a uma escola dominical presbiteriana, onde um professor simpático e liberal levava seis garotos de nós através de lições fornecidas pela igreja, a maioria delas, se me lembro, do Pentateuco. Quanto eu estava no colégio, um relógio que havia perdido voltou a mim de uma forma que pareceu miraculosa, e eu pensei que Deus havia falado a mim. Eu logo perdi minha fé, entretanto, embora tenha me preocupado quanto a isso por alguns anos. Na faculdade eu freqüentava compulsoriamente o culto matinal, onde nossos professores se revezavam lendo passagens da Bíblia, especialmente as Parábolas. Talvez isto explique como, aos 82 anos, eu leve um certo tipo de vida religiosa.

Comungo todos os dias – não em uma igreja com Deus, mas comigo mesmo em uma comunidade thoreauviana(1) de um. Faço isto por 40 minutos enquanto caminho pelo meu escritório. Eu costumava carregar uma edição de bolso dos Sonetos de Shakespeare, e memorizar alguns deles enquanto caminhava. Ocasionalmente eu ainda recito algum para mim mesmo, sempre admirado de como eles são difíceis de lembrar. Geralmente, quando caminho, coloco os afazeres do dia em alguma espécie de ordem.

Eu comungo comigo mesmo à tarde, enquanto escuto música – os 4 B’s (Bach, Beethoven, Brahms e Bruckner), Mahler, Wagner – numa palavra, os Românticos. Não leio enquanto escuto música, mas penso sobre meu trabalho, e sempre tenho um caderno à mão, porque é quando ideias novas surgem mais frequentemente. Quanto estou na minha mesa pratico uma espécie de Zen, como eu o entendo, me colocando na melhor condição possível para dizer coisas. Escrever é um processo de descobrimento. O texto que termino quase não tem semelhança com o texto que comecei a escrever. Eu aprendo o que tenho de dizer.

A ciência, e não a religião, me ensinou valores mais proveitosos, dentre eles a honestidade intelectual. É melhor continuar sem respostas do que aceitar aquelas que meramente resolvem embaraços. Eu gosto da resposta de Bertrand Russell à aposta de Pascal. Pascal argumentou que as conseqüências de acreditar em Deus são tão vastas que apenas um tolo não acreditaria, mas, disse Russell, suponhamos que Deus valorize a honestidade intelectual acima de tudo. Ele nos deu evidências falsas de sua existência e planeja mandar ao inferno todos que acreditam Nele fortemente por causa do prêmio brilhante(2).

Como muitas pessoas, eu reflito sobre as coisas. Como o mundo começou? Nós não estamos em uma posição muito boa para dizer. Nós vivemos num dos menores planetas de um pequeno sol em uma das menores de milhões de galáxias. É notável que tenhamos feito muito sentido a partir dos fatos como os temos. Isto não é muito como resposta, mas eu acho mais crível do que o mundo como o trabalho manual de um criador. Como o criador surgiu?

Como as coisas vivas vieram a existir? Aqui estamos em terreno melhor. Teorias moleculares correntes sobre a origem da vida parecem ser mais plausíveis para mim do que qualquer uma que se diz revelada por Deus. É possível que cientistas um dia construam grupos de moléculas que se auto-reproduzam. Se as moléculas fizerem isso e depois forem submetidas à variação, elas podem evoluir como coisas viventes.

O que é o homem? Aqui, mais próximo ao meu próprio campo, estou menos propenso a concordar com cálculos acadêmicos ou científicos. Eu acredito que a espécie humana é distinguível por uma coisa: através de um passo extraordinário na evolução sua musculatura vocal ficou sob controle operante. Como isso levou à linguagem, auto-observação e auto-gestão é uma história muito longa para contar aqui, e não é uma resposta plenamente satisfatória, mas eu penso que é melhor do que dizer que o homem foi criado à imagem de um Deus criador.

Muitas vezes queria poder orar. Quero ajudar pessoas, especialmente aquelas que amo. Quando eu mesmo não posso ajudar, queria que fosse possível recorrer a alguém que pudesse. Quando criança eu recorria aos meus pais, mas não mais acredito que possa recorrer a um Deus pai (ou mãe).

Muitas vezes queria poder agradecer pela boa sorte, como fui ensinado a fazer quando criança, mas não acredito que boa sorte seja sinal de graça. O que acontece acontece, e nós devemos aceitá-lo, não importa o quão inescrutáveis sejam as razões. (Nem tampouco amaldiçôo Deus por quando sofri, ou peço a Deus para amaldiçoar outros por mim).

Eu me assombro com a complexidade da natureza. Olho para uma grande árvore e tento imaginar como uma célula na ponta da folha mais alta pôde encontrar seu lugar ali. Eu vejo os papa-figos(3) no nosso jardim voltando de uma viagem por milhares de milhas e me admiro de como eles encontraram seu caminho. A natureza é assombrosa, mas não, penso eu, miraculosa. Nós começamos a aprender mais quanto a isso assim que paramos de considerá-la trabalho de um deus.

Crenças religiosas têm sido responsáveis por bela arquitetura, música, pintura, escultura, prosa e poesia. Elas têm mantido pessoas unidas em comunidades duráveis. Algumas vezes, têm ajudado pessoas a se comportar bem em relação às outras e gerir suas próprias vidas com mais sucesso. Mas o afirmado poder de interferir em recompensas e punições sobrenaturais é o tipo de poder que corrompe, e não é por acaso que a religião hoje é tão frequentemente associada com terrorismo e repressão. Mesmo na relativamente pacífica América(4), organizações religiosas estão tentando reprimir o conhecimento em nossas escolas, encorajando o nascimento de crianças que não foram desejadas, impondo suas crenças sobre outros através de atos políticos, e, de muitas outras formas, interferindo na vida pacífica, esclarecida.

Aceito o fato de que como todas as coisas viventes eu logo deixarei de existir. Por um tempo, alguns dos genes que tenho carregado serão replicados nas minhas filhas, e algo de mim sobreviverá nos livros que tenho escrito e na ajuda que tenho oferecido a outras pessoas. A morte não me inquieta. Não tenho medo de punições sobrenaturais, claro, nem poderei aproveitar uma vida eterna na qual não haveria nada mais por fazer, com o trabalho de viver tendo sido cumprido.

[Texto original]

[update]: O Christian informou a referência do texto nos comentários. Obrigada, Christian!
Skinner, B. F. (1987). What religion means to me. Free Inquiry, Spring, 7, 12-13.


(1) Referência a Henry David Thoreau, escritor naturalista americano que escreveu Walden, uma espécie de autobiografia em que defendia a vida simples em contraponto à civilização industrial que florescia na época. O título de Walden II de Skinner parece ser uma clara referência a este livro.
(2) No original, “He has given us shoddy evidence of His existence and is planning to damn to hell all those who believe in Him on the strength of it for the sake of the glittering prize”. Não estou muito certa da minha tradução, mas acredito que o sentido esteja preservado.
(3) No original, “orioles, um tipo de pássaro semelhante ao papa-figo comum nos EUA.
(4) Imaginem se Skinner tivesse podido ver os acontecimentos recentes em seu país que se relacionam com a religião. 11 de Setembro de 2001, criacionismo nas escolas... talvez não tivesse chamado sua América de “relativamente pacífica”.

15 comentários:

  1. Outro dia mesmo ouvi dizer que Skinner não havia se pronunciado abertamente sobre religião/espiritualidade. Gostei de ler o texto, Aline! Grato pela divulgação (e espero que seja um texto legítimo do velho Skinner).

    Abraços.

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  2. Skinner ainda vive nas práticas culturais que deixou (Chamada de Ciência do Comportamento e Behaviorismo Radical) e nos seus livros que serão por um longo tempo lidos e relidos.

    Nossos Tataranetos lembrarão de Skinner como lembramos hoje de Darwin ou Galileu. Um divisor de águas.

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  3. Pois é, Daniel! Como o Skinner nunca foi lá nenhum defensor do ateísmo à la Dawkins ou mesmo o Freud como o citei, achei o texto uma pérola. Acho que pode ser dele mesmo, já que o estilo de escrita é bem semelhante. Se for, acho que vale a divulgação. :)

    Marcos, eu já vi alguns sites americanos chamando o Skinner de "Darwin da psicologia". Acho que é uma alcunha bastante aplicável, já que ele é de fato um psicólogo evolucionista, como discutíamos alguns dias atrás. Espero que a sua contribuição seja devidamente reconhecida no nosso campo assim como a de Darwin, nem que seja pelos nossos tataranetos, como você disse. :)

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  4. Esse artigo foi publicado originalmente na Revista Free Inquiry em 1987. Segue a referência:


    Skinner, B. F. (1987). What religion means to me. Free Inquiry, Spring, 7, 12-13.

    Gostei da tradução, parabéns.

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  5. Muito obrigada, Christian! Tava com esperanças de que alguém que visse o post pudesse me ajudar com a referência correta. Valeu mesmo! :)

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  6. Muito obrigado por compartilhar esta preciosa contribuição Aline.

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  7. Pelo estilo de escrita parece ser do Skinner mesmo! Muito obrigado por compartilhar isso!

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  8. gozado como até nesse assunto ele parece muito com Darwin...

    as mesmas metáforas, as mesmas considerações sobre o assombro diante da Natureza, e a mesma impossibilidade lógica de acreditar em deuses conforme dizem por aí que eles existem....

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  9. obrigada pelo R+, pessoal. :D

    Alessandro, tive uma impressão parecida, até porque o Darwin, assim como o Skinner, foi criado como religioso e passou por esse período de conflito. Os dois também tiveram uma relação particular com a natureza... Contingências, em certa medida, semelhantes.

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  10. A tradução ficou ótima e o próprio texto é bem agradável. Se não for de Skinner, o texto no mínimo lembra muito a sua escrita e o que podemos supor de suas crenças a partir do seu trabalho.

    Parabéns, Aline.

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  11. Obrigada, Marcus. :)

    O Skinner velhinho é bem mais agradável de ler do que o dos primeiros escritos. Ele pegou mais o jeito e também ficou menos chato. rs

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  12. Muito Bom! O Skinner velhinho é mais sábio que no novo!

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  13. Ele, assim como muitos cientistas e outros homens sábios descobriram o real sentido da imortalidade: viver atentamente o presente e desfrutar ao máximo da vida. Claro, o que não significa assumir uma postura hedonista no pior sentido da coisa, mas sim uma existência focada no compromisso do agora mesmo...e, assim, fazendo algo digno de ser lembrado, imortalizado.

    Valeu por compartilhar, Aline!

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  14. Pois é. Ele sublinha, com humildade e sem ser agressivo, o que é que lhe vale na vida.

    Obrigada pelas visitas e por continuar compartilhando o texto, pessoal :)

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  15. Excelente texto.
    Eu estava curioso sobre a opinião de Skinner acerca desse tema já que sou apaixonado pela análise do comportamento e cristão católico.

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