quarta-feira, 6 de abril de 2016

Tarados e denúncias, homens e mulheres e comportamento verbal

Compartilhei a denúncia de uma moça aqui de Curitiba de que um cara havia ejaculado nela no biarticulado. Quem conhece sabe que é um busão que vive cheio e que tem muita gente jovem que pega porque ele passa pelos campus centrais das faculdades aqui. A foto era bastante gráfica e aparentemente ela acabou apagando a denúncia, que gerou comentários e mais comentários de apoio e dúvida do relato, mas vou dar meus dois centavos. Quem me acompanha sabe que eu não tenho lá muito saco pra isso porque as consequências são nada reforçadoras pra mim, mas dessa vez pedidos específicos de amigas foram estímulo pra isso aqui (Marcela, sua linda).

Se é verdade ou não é verdade o caso compartilhado é outra questão. Eu, pessoalmente, não duvido por um segundo. O fato é que não é um caso isolado. A prática masculina de se masturbar com fricção em mulher no transporte público é tão conhecida que tem nome e caracterização no DSM e na CID: frotteurismo, uma parafilia sexual. Curiosamente é uma dessas "doenças mentais" de fundo sexual que praticamente só dá em homem. Em qualquer site pornô que vocês entrem tem vídeos e mais vídeos - "profissionais" e "amadores", cuja diferença na minha opinião está unicamente no tipo de olhar masculino, mas isso é outra questão - dedicados à prática. Os japoneses são conhecidos por ter "fetiche" com isso, tem até hentai. No Brasil, vira e mexe acontecem casos. Consistentemente nos últimos tempos, o metrô de SP recebeu denúncias do tipo e lançou uma campanha contra a prática, que continua muito controversa tanto quanto à sua execução quanto à efetividade dela.

Falar sobre a prática é só uma introdução pra eu falar sobre a questão das denúncias. Quando compartilhei a imagem, houve muitas manifestações masculinas, na postagem, no inbox. O comportamento masculino de se enojar com a situação pode, sim, ser legítimo. Mas não é suficiente, por dois motivos: 1) dizer que se enoja numa postagem de Facebook é unicamente comportamento verbal controlado por contingências específicas operando ali, que não necessariamente controlam a mesma classe de resposta na situação em questão; 2) dizer que se enoja objetivamente não faz diferença alguma no combate ao problema, justamente porque os controles do comportamento são bem diferentes nas duas situações.

"Mas eu tive nojo. E eu tento não ser machista. Não posso dizer isso?"

Pode. Mas dizer que não é machista e que a situação é aviltante objetivamente fará diferença no restante do seu comportamento? Conhecendo a série de contingências que opera reforçando uma série de comportamentos machistas e punindo os "não-machistas", a resposta pra mim é: DUVIDO.

"Mas eu não falei porque queria confete. Eu só descrevi o que senti." [No jargão: tateei algo, não era um mando.]

Daora. Mas "querer" não faz diferença em ter o dito comportamento reforçado ou não. O rato não tem a resposta reforçada porque "quer" a água que veio com a pressão da barra. Ele simplesmente aperta e o apertar é reforçado. Em tempos de redes sociais as pessoas estão cada vez mais LOUCAS DO CU por likes, duvido que todo mundo tenha consciência de que faz o que faz porque "quer likes". Consciência das contingências que operam sobre nós é outra história.

---
TL;DR: me lembro de uma máxima do Hélio Guilhardi que ouvi mais de uma vez. "Não acredite em comportamento verbal".

Nós mulheres sabemos o quanto isso dói em nós e o quanto isso é real. Os homens mal começaram a aprender.

[Texto publicado originalmente no meu Facebook]

sábado, 12 de setembro de 2015

Agora tem! Coletivo Marias & Amélias de Mulheres Analistas do Comportamento

Passando pra avisar que, finalmente, saiu. Eu e umas minas muito fmz fundamos um coletivo de mulheres analistas do comportamento. O Coletivo Marias & Amélias é uma iniciativa que busca reunir as analistas do comportamento interessadas em estudar, pesquisar e discutir as perspectivas feminista e behaviorista radical lado a lado.

Temos percebido que o interesse nas duas coisas na nossa comunidade é crescente e que várias minas pelo país estudam o tema, trabalham com mulheres de uma perspectiva analítico-comportamental ou simplesmente perceberam que as coisas têm a ver, mas não havia um espaço de organização política para unir forças em torno da coisa e para que pudéssemos, ao menos, trocar experiências.


Como toda organização, temos nossos limites. Por reunir mulheres do país inteiro, é complicado ter ações que rolem num mesmo espaço físico, então, recorremos à internet. Isso complica de juntar todo mundo, mas estamos pensando em nos organizar em torno das ações menores em grupos de trabalho e articular como for possível.

Também seguimos o feminismo radical como vertente teórica. Para algumas, isso é uma dificuldade ou mesmo uma visão tacanha, para outras, quase um oásis já que coletivos feministas radicais não são tantos assim. Me abstenho de entrar nas tretas acerca dessa escolha, mas queria destacar que é a vertente teórica com que as fundadoras se identificaram em maior ou menor grau e que julgam ser uma boa ferramenta para pensar comportamentalmente.

O nome é em homenagem à Maria Amélia Matos, uma das behavioristas radicais brasileiras mais conhecidas e notável por sempre ter divulgado e sido combativa acerca da sua abordagem. Podíamos ter homenageado tantas outras, como Carolina Bori, Tereza Sério, Rachel Kerbauy... mas escolhemos a Maria Amélia para representar tantas outras Marias e Amélias de nós.

Se quiser acompanhar, clica aqui e confere a nossa fanpage. Já publicamos nossa carta de princípios, os critérios de participação e vem muito mais por aí!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre as vertentes do feminismo

Um parágrafo para resumir o "nossa, mas por que vocês feministas brigam tanto?" e "ué, mas feminista não é só aquela a favor de direitos iguais?", no livro Dicionário Crítico do Feminismo (Hirata et. al., 2009).

Do verbete "Movimentos Feministas", de Dominique Fougeyrollas-Schwebel:
"Três correntes no seio do movimento se opõem quanto à definição da opressão das mulheres e suas estratégias políticas: feminismo radical, socialista e liberal. Segundo abordagens mais detalhadas, ocorrem distinções entre feministas marxistas ou socialistas, libertárias, radicais, lésbicas, materialistas ou essencialistas. A oposição politicamente mais frontal recai sobre as feministas liberais, de um lado, e feministas radicais e socialistas, de outro. Por 'corrente liberal', devem-se entender os movimentos fundados na promoção dos valores individuais; com a luta pela total igualdade entre mulheres e homens, pode-se falar de um feminismo reformista que conta, por meio de políticas de ação positiva, com a prioridade dada às mulheres para reduzir as desigualdades. Ao contrário, os movimentos de liberação das mulheres querem romper com as estratégias de promoção das mulheres em proveito de uma transformação radical das estruturas sociais existentes. Esse movimento será marcado por oposições quanto às estratégias prioritárias entre aquilo que se denomina na França de feministas socialistas ou tendência da luta de classes, que afirmam que a verdadeira liberação das mulheres só poderá advir de um contexto de transformação global, e as feministas radicais, que sublinham que as lutas são conduzidas, antes de tudo, contra o sistema patriarcal e as formas diretas e indiretas do poder falocrático (Picq, 1993). No âmbito do próprio movimento radical, os grupos de lésbicas advogam a necessidade de um separatismo radical para lutar contra toda obrigação à heterossexualidade (Clef, 1989)".

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por uma defesa da raiva

Li na última semana um texto (mais um dentre tantos) que falava da agressividade tão constante dos espaços feministas. No caso do texto, era discutida a agressividade contra os homens que tentavam se aproximar do movimento, com o conhecido argumento de que a revolução na sociedade também passará por desconstruir o machismo nos homens e que devemos aproximá-los se quisermos fazer isso, não apartá-los. Também já vi várias vezes mulheres falando de como deveríamos ser menos agressivas entre nós ao defender os aspectos específicos de cada alinhamento feminista, em vez de acusar, discutir e rachar umas com as outras. Não vou linkar o texto citado aqui porque acho que não vem ao caso, até porque, se você procurar, vai achar um bom punhado de textos sobre o assunto, com os mais variados argumentos: homens são aliados, não protagonistas, então devemos educar e manter nossos espaços; ai, mas eu não odeio homem, imagina; essa agressividade toda só divide o movimento, cadê sororidade; etc. (Comecei por ele por ter sido um texto disparador, mas na verdade faz tempo que penso em escrever sobre isso; não tenho interesse em fazer guerrinhas de ego nem apontar o dedo para mulher nenhuma, até porque não sou ninguém na fila do pão do feminismo internético brasileiro e espero de verdade que continue assim).

Eu mesma já concordei bastante com esses argumentos. Como psicóloga e analista do comportamento, tendia a levar a discussão para o lado individual, pensando em tudo que os autores da área falam sobre punição. Os maiores críticos do uso da punição para ensinar alguém talvez tenham sido o próprio Skinner, fundador da abordagem, e o Murray Sidman, seguidor direto do primeiro quanto a esse assunto. Muito basicamente, o que se fala sobre punição é: 1. não é efetiva, dado que uma pessoa punida ao fazer algo só aprende a não fazê-lo, mas não aprende nada melhor no lugar e, mais ainda, aprende a deixar de fazer apenas na presença de quem/o que o puniu, o que chamamos de contracontrole; 2. frequentemente gera produtos indesejáveis, como sentimentos de raiva, culpa, ansiedade, etc. na pessoa punida[i]. Ou seja, punição não ajuda e ainda atrapalha. No exemplo citado, além de só fazer com que o cara vá falar mal do feminismo pelas costas das feministas, ainda vai deixar ele com raiva em vez de se interessar por aprender de verdade alguma coisa.

Mas de uns tempos pra cá eu comecei a ficar bastante cética sobre o assunto. Primeiro que a punição, ao contrário do que a maioria dos analistas do comportamento costuma acreditar, não é o diabo feio que se pinta. Infelizmente, nosso meio é coercitivo[ii]. A coerção é uma realidade em qualquer ambiente. Frequentemente fazemos coisas que não queremos fazer, tomamos bordoadas que não imaginávamos tomar e o clima de tabu em se falar de métodos punitivos é bem ruim para uma abordagem que se diz científica. Segundo que os conceitos de punição e coerção vêm sendo já bastante discutidos. Carvalho Neto & Mayer (2011) apontam que Skinner, em diferentes momentos da sua obra, tratou reforçamento e punição como assimétricos e como se reforçar em vez de punir fosse sempre melhor, mas que não é bem assim – o reforçamento também acarreta subprodutos a que pouco atentamos, mas que o próprio Skinner até menciona em alguns momentos discutindo questões sociais, como a baixa resistência à frustração que pode causar (ver Skinner, 1987). Enfim, tem um milhão de questões conceituais que não vale a pena escarafunchar aqui nesse texto, mas é bom prestarmos mais atenção no que falamos sobre punição.

Para além dessas nerdices de behaviorista radical, comecei a me questionar sobre a propaganda que fazemos de tratar as pessoas sempre bem e sermos todas amigas e vamos dar as mãos e ser felizes dentro do feminismo. As primeiras a colocar o dedo na nossa cara com razão foram as feministas negras. O feminismo, enquanto movimento com esse nome e com uma série de preceitos específicos, sempre foi elitista e voltado para as questões de mulheres brancas e burguesas. Uma dessas mulheres sou eu. Eu me senti confortável no feminismo assim que percebi que minhas questões com a mulheridade são contempladas no seio do movimento. Eu posso sentar, ler, discutir e me sinto representada pela maioria dos tópicos que são discutidos. No entanto, nem todas são. Frequentemente existem casos de racismo dentro de grupos feministas e quando as mulheres negras vão apontar, são cobradas com os argumentos que citei acima. “Ah, mas vocês estão sendo agressivas”. “Ah, mas vocês estão dividindo o movimento”. “Ah, mas EU não achei isso que você está dizendo racista”. “Ah, mas EU não sou racista, tenho amigas negras”. “Ai, não precisa ser grossa comigo, cadê a sua sororidade”. And so on, and so on.

"O movimento feminista participa dos movimentos antiautoritários (...) Pertencer ao movimento representa a realização de uma nova ideologia, a pesquisa de sentido e de valores comuns. A essa nova ideologia denominou-se "sororidade": sisterhood is powerful (a sororidade é poderosa). Mas as questões de identidade racial ou nacional dividem o movimento, e a solidariedade comum das mulheres é rapidamente questionada pela suspeita da ignorância dos problemas próprios de cada grupo identitário, pelo temor da criação das novas formas de dominação entre homossexuais e heterossexuais, entre burguesas e proletárias, entre as mães e aquelas que não o são, entre as mulheres brancas e as mulheres negras (...)". (Fougeyrollas-Schwebel, 2009, p. 146).

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Escrever, escrever, escrever

Tenho pensado muito em escrever mais sobre feminismo pro blog e sinto bastante dificuldade. Assim que escrevo dois parágrafos, tenho vontade de jogar fora. Uma das maiores dificuldades que sinto é de conectar o feminismo ao behaviorismo radical, que é a tradição filosófica que eu estudo na psicologia.

Não por achar que não há nada a dizer, pelo contrário. Entrei no mestrado justamente por um campo vastíssimo se abrir sobre isso a cada vez em que penso no assunto. Existe muito pouca coisa publicada sobre isso (a maioria de uma mesma autora, a Maria Ruiz; e são artigos contados nos dedos das duas mãos). Então, qualquer coisa é novidade.

O problema parece ser justamente esse. Sinto como se estivesse sempre balbuciando, começando de premissas muito básicas que precisam ser esclarecidas, enquanto outras áreas estão a anos-luz de nós. É meio chato. Além do mais, o behaviorismo radical é uma corrente maldita - não falamos bonito, não temos frases de efeito sobre como funciona o mundo e não fazemos o estilo "de humanas". Não atraímos atenção. Qualquer coisa misógina que o Freud tenha dito tem mil defesas feministas. O behaviorismo radical, não.

Internalista, né? Mas é isso.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Skinner e o fluxo da consciência

A gente se acha muito geração Y e muito dispersa e muito "será que tenho TDAH" e muito procrastinadora por culpa do Facebook (e do Twitter, e do Tumblr, e do WhatsApp, e de tudo o mais em que se possa pôr a culpa...).

Mas o Skinner tinha o mesmo problema, como se pode ver no manuscrito não-publicado (procrastinado?) do texto The Stream of Consciousness.

"A despeito de todo o esforço de eliminar linhas de atividade improdutivas eu ainda me encontro trabalhando em muitos - todos fascinantes - campos. Aqui estão algumas coisas que 'vêm à mente' enquanto ouço música deitado numa manhã de domingo: [...]"



(texto via B.F. Skinner Foundation)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Entrevista sobre Game of Thrones e a cultura do estupro na mídia para a Revista Fórum


Dei uma entrevista para a queridíssima colega Jarid Arraes, em que ela pediu para que falasse um pouco sobre cultura do estupro, tendo como ponto de partida uma cena do seriado Game of Thrones. Acabei falando de análise do comportamento lá, e como é relativamente raro que isso role na grande mídia, achei válido postar aqui.



Link para a entrevista completa clicando aqui.

sábado, 15 de novembro de 2014

"Você é muito inteligente para uma mulher"

Antes de me reconhecer como feminista, eu ouvi essa frase e suas variações algumas vezes de pessoas com quem me relacionei ou que conheci. Naquela época eu sentia que tinha algo errado, mas não sabia o que era esse "algo". "Esse cara está me elogiando, mas por que eu não me sinto de todo bem com isso?". As variações foram coisas como: "Você é mais inteligente do que as mulheres que eu costumo conhecer"; "É que a maioria das mulheres é fútil e não liga pra essas coisas sobre as quais estamos conversando"; "Você é diferente das outras".

Demorou para eu perceber as asserções nas entrelinhas: 1) a mais óbvia é que se diz de outra forma "mulheres são burras"; 2) "seu valor aos meus olhos só surge enquanto você se destaca da categoria 'mulher', enquanto você é ~diferente~". Isso é problemático de diversas maneiras. Mais do que a frase encharcada de sexismo benevolente, fica a mensagem de que se você é mulher, por si só, precisa fazer algo para ~ser diferente~ para valer alguma coisa; ou, em outras palavras, precisa ser qualquer coisa que não seja "a mulher" segundo o conceito do cara machista. E não há nada de errado em ser mulher. Mas a gente compra essa às vezes.

Demorou para eu ouvir apenas "você é inteligente", e ponto. E, pelo que percebo, além de nós, mulheres, não percebermos por vezes qual o problema disso, tem cara que ainda acha que está elogiando para falar uma abobrinha dessas. Não, não é um elogio.

Se um cara falar isso pra você, gata, ele não está sendo fofo. Não está reconhecendo suas qualidades únicas. Run to the hills.

(textinho do meu facebook)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Tornar-se feminista - controle de estímulos, comportamento e feminismo

Quem me conhece pessoalmente e/ou acompanha há algum tempo minha vidinha VIP (Very Internet Person) sabe que, de uns tempos pra cá, me interessei pelo feminismo e comecei a estudá-lo mais ou menos sistematicamente. Começou faz pouco tempo. Meu interesse surgiu nos tempos do auge do Femen Brasil, um par de anos atrás. Talvez vocês se lembrem daquelas moças, entre elas uma garota bonita e loira com um quê de Marilyn (a líder Sara Winter), que eram clicadas fazendo manifestações com os seios de fora e uma guirlanda de flores na cabeça. Me lembro especialmente de uma manifestação contra as lojas Marisa e outra contra o turismo sexual.

Naquela época, também chegou e começou a fazer barulho em terra brasilis a Marcha das Vadias, adaptada das Slut Walks que ocorreram pelo mundo após um policial canadense declarar que para as garotas não serem estupradas, deveriam se vestir de forma, digamos, mais comedida. As Marchas aglutinaram reivindicações do novo feminismo, e talvez por questões de zeitgeist, se confundiam na mídia com as manifestações das brasileiras do Femen. Portais de notícias faziam extensas galerias de fotos de garotas com os seios de fora e os corpos pintados, carregando cartazes e gritando palavras de ordem contra diversas situações pelas quais as mulheres passam.

Eu já estava em vias de me formar, ou formada, não me lembro bem, e essas discussões me chamaram a atenção. Primeiro porque eu não conseguia casar aquilo tudo com a ideia que eu tinha de feminismo. O que eu conheci sobre o movimento veio da via de senso comum e dos poucos contatos com feministas que tive durante a faculdade de humanas. Minha visão era uma espécie de amálgama de características positivas - mulheres que estavam lutando por seus ideais, afinal - e, mais que as primeiras, negativas - mulheres que só falavam em aborto (do que eu era contra), que pregavam uma liberação sexual que eu não entendia bem (pra mim tinha a ver com se tornar não-monogâmica ou bissexual ou lésbica, uma visão extremamente ingênua e tacanha da minha parte da qual até hoje me envergonho), que tinham relações intrínsecas com a política partidária (o que vinha do que eu via nos movimentos da faculdade) e, principalmente, que eram agressivas e hostis e por isso eu tinha medo de me aproximar pra perguntar ou esclarecer minhas dúvidas. Enfim, era uma visão bem de senso-comum de feminista como "gorda-feia-lésbica-que-queima-sutiã-não-se-depila-e-faz-aborto-como-quem-troca-de-camisa". Talvez uma visão só um pouquinho menos estreita que isso.

Ao ver todas aquelas manifestações e mulheres juntas, eu fui pesquisar na internet informalmente pra tentar captar qualé. Vi que, apesar de serem colocadas pela mídia frequentemente como tudo a mesma coisa, Marcha das Vadias e Femen Brasil tinham ideais diferentes e não eram tocadas pelas mesmas pessoas. Percebi, curiosamente, que parecia que o Femen, tido pela mídia como retrato da feminista-que-grita, na verdade não era um movimento nem um pouco unânime pra quem já estava dentro do barco do feminismo há mais tempo. "Ué, todas tiram a roupa e protestam, qual que é a diferença?". Long story made short, fui chegando aos pouquinhos, lendo vários textos, assistindo coisas, participando de grupos de debate, escutando e falando, e, bam!, percebi que eu era feminista.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Indicação de artigo - 10 dicas para escrever artigos científicos em inglês como um falante nativo

Todo mundo que estuda e faz ou fez parte de algum grupo de pesquisa já passou por aquela situação que dá arrepios: tá todo mundo lá pesquisando, produzindo, e na hora de discutir os resultados e decidir os detalhes de como publicar, a orientadora/orientador decreta: "TEMOS QUE PUBLICAR ISSO EM INGLÊS, porque em português ninguém lê e eu quero mandar para revistas de impacto e quero fama e dinheiro e louros e iates e prêmios Nobel e etc".

Daí você, inocente bolsista de iniciação científica, se vê na difícil tarefa de escrever numa língua que não é a que você aprendeu desde o bê-a-bá lá quando era um lindo bebezinho. E aí? Comofas? É choro e ranger de dentes, gente brigando dentro do grupo, amizades feitas e desfeitas, gente saindo na mão, madrugadas em claro, todos jogando o artigo no lixo e recuperando mil vezes até sair alguma coisa que preste - isso quando não dão o azar de, depois de o trabalho todo feito, receber de volta o texto da equipe da revisão da revista mandando revisar tudo de novo. Revisar, revisar, revisar!

Isso na verdade é complicado não só pra quem é bolsista IC. No Brasil poucas pessoas realmente dominam bem o inglês, e isso acontece também entre aqueles docentes-dinossauros que estão há anos pesquisando, mas nunca publicaram fora por não dominar o idioma. Mas o inglês é a atual língua da ciência, então não tem nem choro nem vela. Tem de se virar. Mesmo os fluentes na língua também vão se deparar com dificuldades especiais quanto à escrita científica - uma coisa é bater papo na Disneylândia com o Mickey Mouse, outra é comunicar os resultados da sua pesquisa de 15 anos pra outros colegas que podem estar genuinamente interessados no que você tem a dizer.

Depois de receber vários pedidos de colegas brasileiros para revisar artigos em inglês, a pesquisadora Mariel Asbury Marlow resolveu publicar dez dicas para escrever artigos científicos em inglês - e não apenas escrever, mas escrever bem e de acordo com as normas de escrita científica. Ela esclarece vários possíveis problemas ao se verter completamente um texto do português para o inglês, como o uso da voz passiva (comum no português, mas não muito bem aceito na redação científica em inglês), o uso de maiúsculas e minúsculas, artigos definidos e indefinidos, pronomes etc. O artigo pode ser encontrado aqui e o acesso é gratuito. É pra ler e guardar pros momentos de desespero.

(Indicação via INCT|ECCE no Facebook, vale curtir: https://www.facebook.com/InctEcce)