sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Religião e sociedade - #EmDefesadoEstadoLaico

Nesta semana, o Livres Pensadores lançou a campanha Em Defesa do Estado Laico. Os internautas foram convocados a se manifestar sobre esse tema - o tal Estado Laico que existe, afinal de contas, tão virtualmente quanto esta blogueira que vos fala.


Qualquer um que pare pra pensar por mais de cinco minutos sabe que Estado Laico de cu é rola. Não existe essa proclamada laicidade e não existe liberdade de crença no Brasil. Crenças religiosas que não são compartilhadas por todos acabam ditando até onde a liberdade de todos os cidadãos de um país pode ir.

Legislação do aborto e das políticas em relação à sexualidade são os temas mais óbvios quando se vai pensar nisso. Há anos e anos a discussão sobre tais esferas emperra quando se aproxima da crença de uns e outros. Uma mulher pode ser obrigada a carregar um filho na barriga por nove meses, mesmo sabendo que ele morrerá logo após o nascimento. Um casal pode viver junto por anos e construir patrimônio em conjunto, para que depois sua união não seja reconhecida e o dinheiro vá para outros que muitas vezes fizeram parte da banda que discriminou.

No entanto, existem outras nuances. Religiões gozam de privilégios fiscais e recebem incentivos do governo, que não são estendidos nem a todos os cidadãos, nem a todas as religiões. E todos esses acontecem sem muito alarde, por debaixo do pano. Algumas são favorecidas enquanto outras chegam a ser perseguidas.

Temas que inflam discussões de fundo religioso volta e meia ressurgem e provocam debate. Só nesta semana, tivemos no domingo Caetano declarando que era ateu - assim, uma declaração boba, no meio de uma frase -, no Faustão, o que virou de cabeça pra baixo as redes sociais. E mais recentemente houve a aprovação do Dia do Orgulho Hétero pela Câmara de São Paulo-SP, não surpreendentemente com um projeto de autoria de um vereador evangélico - que já teve até seu site invadido por conta do absurdo. O tal dia serviria pra combater os "privilégios" que os gays têm conseguido. Eu não me lembro de nenhum e não vi nenhum sendo objetivamente citado. Mas enfim.

A religião é um típico sistema de controle cerimonial (Ayres, 1944/1972, citado por Glenn, 1986) - baseado em regras rígidas, pouco sensíveis às consequências dos comportamentos das pessoas, e assentada no que é determinado por autoridades que detém o controle. O que é feito com base na religião é feito com base em consequências não em contato com o comportamento do indivíduo, mas que são ditadas por alguém e estão tão longínquas que, se bobear, apenas após a morte os frutos são finalmente colhidos.

Basicamente, homens matam milhares para conseguir um punhado de virgens no paraíso. Pessoas sofrem com privações financeiras diversas acreditando que o céu é para os pobres. Algumas entregam consideráveis fatias do seu patrimônio para igrejas tendo fé de que estão pagando algo que lhes é de direito. Não apenas cerceiam a sua liberdade, mas também a de outros, com base no que livros e autoridades religiosas dizem que irá acontecer.

Regras são úteis na medida em que descrevem contingências e podem ser uma estratégia de controle eficaz (Matos, 2001). Nesse sentido, algumas regras religiosas, muitos argumentos, são úteis - não matar, amar o próximo, fazer o bem, etc. etc. etc. Pessoas que seguem tais regras são moralmente íntegras, portanto, a religião também faria bem à sociedade; mais ainda, seria necessária, já que sem o controle de uma entidade superior as pessoas sairiam fazendo bobagem por aí. Certo?

Não. Amigo religioso, se um dia você já usou esse argumento, 
sinto em lhe dizer que não funciona.

Não é preciso dizer que esse tipo de controle é falho. Mesmo sem mencionar atiradores noruegueses da vida, sabemos que pessoas religiosas podem errar na mesma medida que pessoas sem nenhuma religião. Ateus não são matadores berserker lokassos de dorgas estuprando em massa por aí, nem religiosos são a encarnação do bem oferecendo a outra face aos tapas. Tanto uns quanto outros fazem merda, infelizmente.

Para que as sociedades humanas tenham uma existência ao menos digna sem andar se matando e destruindo, parece com isso tudo que a religião acaba sendo ineficaz. Depois de séculos sob sua tutela, não foi por causa dela que a humanidade avançou. Baseado nisso, não tem como não pensar que essa nova onda de leis e regulamentos que pipoca por aí querendo trazer a população para mais perto do código moral cristão é um retrocesso.

Não matar, não roubar, amar o próximo e não sair fazendo diversas outras burradas adoidado pode ser muito útil. Não é uma moral vazia. Tem valor de sobrevivência cultural. No entanto, fazer isso por que vai ser recompensado além-túmulo é, sim, vazio. Basta ficar atento às consequências terrenas possíveis de nos fazer durar mais por aqui. Nesse sentido, promover o ódio e sustentar práticas inúteis como as que estamos vendo é um contra-senso.

"Talvez nós sejamos capazes de conseguir uma maior aproximação com a Terra Prometida dispensando o controle cerimonial da autoridade religiosa e olhando com maior cuidado para as contingências implícitas às regras que seguram no lugar nossas práticas sociais". (Sigrid Glenn)

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Referências

Glenn, S. (1986). Metacontingências em Walden Dois. Tradução de R. C. Martone e D. S. C. Ferreira. In: Todorov, J. C., Martone, R. C. e Borges-Moreira, M. (2005). Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. ESETec, Santo André, SP. pp. 13-35. (Original em inglês disponível aqui)

Matos, M. A. (2001). Comportamento governado por regras. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol. 3, nº. 2, pp. 51-66.

5 comentários:

  1. Pois é, Aline, é um dificuldade muito grande fazer valer o Estado laico no Brasil.
    A última que me arrepiou foi a declaração de fundos para comunidades terapêuticas - enquanto a maioria dos CAPS estão aos pedaços e eu duvido que se eu montasse um centro de tramento pra dependência química baseado na Umbanda ou no neopaganismo eu ganharia dinheiro do governo.
    O link do observatório do CETAD sobre o assunto: http://www.ici.ufba.br/twiki/bin/view/CetadObserva/WebHome

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  2. Cacildis! Não tinha ficado sabendo dessa, Julia.

    Ou seja, agora também os recursos da saúde estão indo pro bolso de religiosos. Beleza hein...

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  3. Massa o texto, o argumento de ser bom é falho desde que nasceu...A inquisição, o terrorismo de hoje, todos em nome de Deus!

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  4. http://www.youtube.com/watch?v=7yjpY1GWKm8&feature=related hehehe

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  5. Né, Mateus? Hehe

    Assim como ser ateu não te torna mau imediatamente, ser religioso não te torna bom imediatamente...

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